A Decisão Nômade: O Que Acontece Quando Você Vende Tudo e Sai Viajando?

A pergunta de um milhão de dólares

Ontem, durante uma visita à minha primeira afilhada — filha do meu único parente iraniano no Brasil, meu primo Mazi — fui confrontado com uma curiosidade misturada com preocupação genuína.
O motivo? Minha decisão de me tornar um nômade digital.

Na teoria, a decisão parece simples: sair do trabalho, vender tudo e partir para viajar pelo mundo.
Na prática, ela levanta a pergunta que está na mente de quase todo mundo — e que Mazi verbalizou com a franqueza que lhe é característica:

“Amin, você ganhou na Mega-Sena?
Como você vai pagar essa viagem?
De onde você vai comer?
Se você fizer uma viagem simples de final de semana aqui perto, alugando um chalé por duas noites, vai gastar uns quatro mil reais.
Agora, como você vai viajar pelo mundo?”

A lógica dele é irrefutável — se pensarmos no modelo de viagem que a maioria conhece.
O modelo do turista.
Aquele que gasta muito em pouco tempo.

Minha resposta, no entanto, foi a chave para explicar essa nova realidade:

“Existem diferentes tipos de viagem.
A gente não é turista.
Nós não vamos turistar.
O estilo de viagem que você conhece é caro.
O nosso é outro.
A gente vai ser nômade digital.”


Os benefícios são consequências, não a causa

Ao explicar para o Mazi o conceito de nomadismo digital, tentei listar os motivos que me levaram a essa mudança radical. Poderia trazer vários:

Liberdade geográfica.
Visitar minha família com mais frequência.
Uma vida financeira mais tranquila.
Estar mais presente com minha esposa e acompanhar de perto a educação dos meus filhos.

Tudo isso é verdade.
Mas, pensando melhor, percebi algo importante: essas coisas não são o motivo. São consequências.

É como perguntar a alguém por que trabalha em uma empresa que tem Participação nos Lucros e Resultados (PLR), e a pessoa responder:
“Porque tem PLR.”

Isso não é o motivo real.
O motivo real, na maioria das vezes, é muito mais básico: sobreviver, comer, pagar contas.
A PLR é um benefício que vem depois.

Da mesma forma, tudo aquilo que citei sobre a vida nômade são benefícios desse estilo de vida.
Mas o motivo real… esse eu ainda não sei.

E foi isso que eu disse ao meu primo:
eu não sei exatamente por quê.

Tenho pensado muito sobre isso — e escrevo justamente para tentar entender.
O fato é que, há meses, sinto uma força que parecia morta dentro de mim.
Uma energia absurda para fazer mil coisas ao mesmo tempo.

Em um curto espaço de tempo, aconteceram mudanças profundas:
novas oportunidades profissionais, processos de naturalização, documentos, compra de passagens e equipamentos de trabalho, criação de site, estruturação da empresa, planejamento financeiro e da vida nômade, pedido de demissão, aviso imobiliário, venda de móveis, organização da mudança.

É tanta coisa que nem consigo listar direito.

E aí me peguei pensando:

“Bizarro, Amin.
Você sempre foi alguém que calcula tudo, que planeja, que pesquisa antes de decidir.
Como está fazendo tudo isso sem saber exatamente o porquê?
De onde vem essa energia?”


“Você está cansado…”

A verdade é que essa força vem de algum lugar.
Mesmo que eu não saiba explicar, ela existe.

Quando falei ao Mazi que eu não sabia o motivo, ele disse algo que eu não esperava ouvir. Algo simples — e profundo:

“Você está cansado…”

Aquilo me atravessou.

Sim.
Eu estou cansado.
Tão cansado que nem percebia o quanto estava.

E quando ele também percebeu, ficou claro que não era algo sutil. Era evidente.

Estou cansado desse estilo de vida.
Cansado de correr a vida inteira atrás de algo.
Cansado de viver cercado por regras.

É estranho ter que bater ponto de manhã e permanecer horas em um lugar onde, muitas vezes, metade do tempo não se produz absolutamente nada — apenas porque, se você não estiver ali, não recebe.

Enquanto isso, a sua vida passa.
A cada segundo, você está mais perto da morte, gastando tempo precioso em um lugar que não faz sentido.

Isso, para mim, não condiz com a essência do ser humano.

Liberdade é um direito básico.
Uma criança fica nove meses no ventre da mãe — depois disso, precisa ser livre.
Mas nós escolhemos viver como condenados, passando crachá em um lugar fixo por trinta, quarenta anos da nossa vida.

Isso é assustador.

Faz todo sentido eu estar cansado.
Estou vivendo algo que não está alinhado com quem eu sou.


Viver mais leve

Claro, isso pode não ser um problema para muita gente — e está tudo bem.
Respeito profundamente o direito de escolha.

Mas, para mim, o que estou fazendo agora faz muito mais sentido.

Não tomei essa decisão para descansar por um tempo.
Não é isso.

Eu quero não cansar mais.
Quero uma vida mais leve.

Entre bilhões de pessoas vivas hoje, entre milhões de anos da história do universo, eu sou insignificante.
E tudo bem.

Dá para viver mais leve.
E se mais pessoas escolhessem isso, talvez o mundo também fosse um lugar mais leve de existir.


P.S.
Enquanto refletia sobre tudo isso, fui pesquisar a população atual da Terra e encontrei um site que mostra a contagem em tempo real: nascimentos, mortes, números que não param de se mover.

Atrás de cada número existe um ser humano nascendo ou morrendo.

Se você levou cerca de cinco minutos para ler este texto, aproximadamente 600 pessoas morreram nesse intervalo.

É um lembrete brutal:
a vida passa muito mais rápido do que imaginamos.

Não há tempo a perder vivendo uma vida que nos cansa e nos aprisiona.

A liberdade é agora.

Fale com a Alocêntrica

© 2025 Alocentrica Copyright - Todos os Direitos Reservados.