O Pesadelo de Acordar em uma Ditadura: Um Relato de Dentro do Irã

Introdução – o Sonho

Eu acordo e pego meu celular. O Instagram não carrega, nem o WhatsApp, o TikTok ou o YouTube. Nada! Checo o Wi-Fi: está conectado. O Google até abre, mas está lento e não consigo ver notícias, o resto do mundo digital desapareceu. 

Desesperado, ligo a TV. Há poucos canais. Um deles ensina que se deve entrar no banheiro com o pé esquerdo, pois o direito é reservado para a entrada no paraíso. O que eles estão falando?, me pergunto. Troco de canal. Um fala da Palestina. Outro, do Líbano. Outro declara que os Estados Unidos e Israel são inimigos que vamos vencer. Um noticiário afirma que há fome nos EUA, com o governo matando manifestantes nas ruas. Outro diz que a Europa, sem gás, enfrenta um inverno congelante, com pessoas queimando lenha para sobreviver.

Na tela, as mulheres estão todas cobertas, mostrando apenas o rosto. Os homens, todos de barba. O ar começa a faltar. Preciso sair, respirar. Visto uma regata e um short e abro a porta. O calor é intenso, mas o ar é irrespirável. Uma poluição densa me faz tossir. Desisto de respirar fundo e apenas caminho, tentando entender o que está acontecendo. As ruas estão cheias de carros velhos, sujos, poluídos. Os rostos das pessoas expressam uma tristeza exausta.

De repente, o medo. Uma voz grossa e agressiva me chama.

— Ei, folgado! Estou falando com você!

— Comigo? — respondo, confuso.

Três homens barbudos, de camisa de manga longa e calça social, me cercam. Eles não usam uniforme, mas carregam rádios.

— Tem mais alguém aqui vestido assim? Você não sabe onde mora? Está bêbado?

— Quem são vocês?

— Não te interessa. Entra no carro. Vai entrar por bem ou na porrada? Anda logo, seu lixo. E passa o celular.

Sou levado a um lugar que não parece uma delegacia. Na placa, está escrito: Basij (termo que explico adiante). Horas depois, em uma sala de interrogatório, as perguntas começam:

— Qual a senha do seu celular? Você fala com quem? Tem contato com canais fora do país? Por que saiu vestido desse jeito? Mandou vídeos ou fotos para a oposição?

Acordo, suado e ofegante.

Dessa vez foi só um sonho, digo, um pesadelo, de quem por 27 anos viveu na pele esse medo. Mas para milhões de pessoas, ainda é a realidade diária de se viver sob um regime ditatorial.

O Que é Viver em uma Ditadura?

Muitos ouvem a palavra ditadura e a usam para descrever qualquer governo de que não gostam. Mas como é, de fato, viver sob uma?

Eu poderia escrever por horas sobre isso. Não tive a sorte de nascer em um país livre. Nasci no Irã, uma nação controlada por um regime que certamente disputa o título de um dos mais cruéis da história. Vivi 27 anos da minha vida nesse sistema e, mesmo após oito anos desde que saí do país, ainda carrego as cicatrizes.

Recomeçar a vida do zero em uma terra cuja língua você não fala, lutar muito mais que os outros por uma vida digna, sentir a saudade da família e da sua terra… tudo isso se torna uma bagagem diária. O pesadelo de uma ditadura não termina com a imigração.

A Cola da Ditadura: A Ideologia

Mas como uma ditadura surge e se sustenta? O fator comum e mais importante é a ideologia. Ela funciona como a cola que une o regime, dando-lhe uma aparência de legitimidade e um propósito que vai além da simples tomada de poder. A ideologia serve para:

  • Mobilizar as massas: Oferece uma visão de futuro e, crucialmente, um inimigo em comum. O inimigo é essencial para a sobrevivência do regime.
  • Justificar a repressão: A violência é apresentada como um mal necessário para proteger a nação ou a ideologia de supostas ameaças.
  • Criar uma base de apoio: Constrói um grupo de seguidores leais que acreditam na causa defendida pelo ditador.

Existem diferentes modelos de ideologia que sustentam ditaduras. Os três mais comuns são:

  1. Ideologia Revolucionária: Como o Comunismo na União Soviética (Stalin), China (Mao) e Cuba (Fidel Castro). O ditador surge como um líder que promete derrubar uma ordem opressora (capitalismo, imperialismo) e criar uma sociedade utópica. A ditadura é justificada como uma fase de transição.
  2. Ideologia Reacionária/Contra Revolucionária: Como as ditaduras militares na América Latina (Brasil, Chile, Argentina). O regime surge com o pretexto de salvar a nação de uma ideologia perigosa (como o comunismo), mas impõe sua própria doutrina autoritária e nacionalista.
  3. Ideologia Religiosa (Teocracia): Como no Irã (desde 1979) e no Afeganistão (Talibã). Aqui, o poder não emana do povo, mas de uma autoridade divina. Os líderes se apresentam como meros executores da vontade de Deus. Este tipo de regime, como vivi na pele, tem um potencial único para a crueldade. A busca por uma recompensa em outro mundo (o paraíso) torna a vida e o bem-estar neste mundo secundários.

A Lógica Divina da Opressão

Eu vivi na ditadura do tipo 3. A partir do momento em que um líder afirma que suas ordens vêm de Deus, ele se torna inatacável. Questioná-lo é o mesmo que questionar Deus. Isso elimina a necessidade de prestação de contas, debate público ou justificativas racionais, criando um ambiente fértil para o autoritarismo extremo.

Quando a lógica é divina, tudo pode ser proibido. A lista de itens e atividades que os Aiatolás declararam Haram (proibidos) no Irã ao longo das décadas é surreal: bicicleta, música, dança, xadrez, gravata, internet livre, festas mistas, amizade entre homens e mulheres, mostrar o cabelo (para mulheres). A punição por desobedecer pode ir de uma multa até a pena de morte.

Os Olhos e Ouvidos do Regime

Mas como o regime impõe esse controle de forma tão capilar? A resposta está na infraestrutura de vigilância. Antes da revolução de 1979, o Irã tinha cerca de 25.000 mesquitas. Hoje, estima-se que existam 92.000.

Essas mesquitas não são apenas locais de oração. Elas funcionam como os olhos e ouvidos do governo em cada bairro. Dentro de muitas delas, há um escritório do Basij, a força paramilitar criada para reprimir protestos e espalhar o terror. Os membros do Basij são moradores do próprio bairro, que espionam seus vizinhos e reportam qualquer desvio de conduta às autoridades.

Esse relatório tem um poder devastador. Em um país onde a maioria das oportunidades de emprego é pública, passar em uma prova técnica não é suficiente. É preciso ser aprovado por um comitê de avaliação ideológica. Imagine que seu vizinho reporta que você não frequenta a mesquita ou, se for mulher, que não cobre o cabelo adequadamente. Essa simples anotação pode destruir sua carreira.

Essa repressão não é uma história distante. Ela moldou minha vida. Meu pai, que era professor, foi suspenso do cargo por cinco anos devido a atividades políticas. Minha mãe, mesmo passando na prova para um cargo público, foi rejeitada porque um vizinho relatou ao comitê que ela não usava o hijab de forma correta. A decisão não afetou apenas a carreira dela; afetou o futuro de toda a nossa família.

Viver em uma ditadura é ter a própria alma vigiada. É aprender a esconder quem você é para sobreviver. É ver a cor do mundo ser drenada até que reste apenas o cinza da obediência. Por isso, quando você desfrutar de sua liberdade — seja ao escolher sua roupa, ao postar uma opinião online ou simplesmente andar na rua sem medo —, lembre-se de que essa liberdade não é garantida. Ela é um tesouro. E em lugares como o Irã, há milhões de pessoas sonhando, todos os dias, com o pesadelo que hoje para mim foi apenas um sonho.

O objetivo de um regime ditatorial não é apenas controlar corpos, mas colonizar mentes. Ele quer que você se vigie, que você se censure, que você se torne seu próprio carcereiro. Mas a história que eles não contam é a da resiliência. Em cada livro proibido lido em segredo, em cada música ouvida em fones de ouvido, em cada fio de cabelo que desafia o véu, existe um ato de resistência. Minha voz, agora livre, se junta a esse coro.

O que eu descrevi aqui não é um roteiro de filme distópico. É a vida real, agora, para o meu povo. A indiferença do mundo é o oxigênio que mantém esses regimes vivos. Entender como uma ditadura funciona, como ela destrói vidas e sonhos, não é apenas um exercício intelectual; é um dever humano. Este é o primeiro de uma série de artigos onde usarei minha vivência para iluminar essas sombras. Porque a pior vitória de um ditador é nos fazer acreditar que sua realidade é normal. E ela nunca será.

Este artigo é o começo da minha tentativa de honrar a luta delas.

Nos próximos artigos, continuarei a contar as histórias, não apenas de dor, mas de uma coragem que nenhuma ditadura pode apagar.

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